12 de mar. de 2014

Convite Virtual



CONVITE VIRTUAL

INTERIOR / DIA / SALA DE UMA PRODUTORA DE AUDIOVISUAL
   Em uma bela manhã ensolarada e quente de verão o produtor está sentado em sua sala começando mais um dia de trabalho. Ele está checando seus emails, como faz sempre que as coisas estão mais tranquilas pela manhã. Como sempre, entre os emails urgentes tem alguns pedindo oportunidade de emprego, e como sempre ele infelizmente não tem tempo para ler. Um dos emails chama a sua atenção. O título (CONVITE VIRTUAL) é curioso. Ele checa o remetente e é um desconhecido.

PRODUTOR
Quem é esse Pedro?

  Ele clica na mensagem, e antes de começar a ler o texto que aparece ele toma um gole da sua caneca de café e agradece mentalmente sorrindo, pelo elixir da vida que desce pela sua garganta. O que seria dele sem a segunda melhor invenção do homem? Nesse momento ele olha para a melhor, o ar condicionado que já funciona a todo vapor para tentar combater o calor infernal desse verão cáustico. Perdido em seus devaneios o produtor a princípio não repara nas interferências que começam a aparecer na tela do seu computador. As interferências aumentam e uma luz muito forte começa a aparecer. Ele olha assustado e se afasta da mesa. A luz se intensifica e um zumbido toma conta do ambiente. O produtor está muito assustado, parece que a coisa vai explodir. Só que inesperadamente tudo para e volta ao normal, a não ser pelo jovem que agora está ao lado da máquina. O jovem homem na sua frente está checando seus braços e pernas, e após uma olhada rápida ele olha para o produtor sorrindo.

PRODUTOR
Mas o que é isso? O que está acontecendo aqui, quem é você?

PEDRO
Calma, eu já vou te explicar. É normal que você esteja assustado, mas a explicação é mais simples do que parece. Primeiro as apresentações. Meu nome é Pedro e eu sou um roteirista novato procurando uma oportunidade de começar. Fui eu quem te mandou o Convite Virtual.

PRODUTOR
Mas isso não explica o que foi essa quase explosão e o que você está fazendo aqui. Eu recebo email de roteiristas novatos regularmente e isso nunca aconteceu. 

PEDRO
Muito bem. A explicação é de fato muito simples. Nós estamos dentro de uma das minhas histórias e por isso eu posso fazer o que eu quiser como me teletransportar para cá.

PRODUTOR
Que maluquice. Isso é impossível.

Pedro bate palmas duas vezes rapidamente e aparece um garçom de fraque segurando uma bandeja cheia de brigadeiros. O produtor chocado fica travado.

PEDRO
Não? Prefere cocadas? 

Pedro bate novamente palmas e os brigadeiros são substituídos por cocadas. Ele pega uma, morde e bate palmas novamente. O garçom desaparece com as cocadas.

PEDRO
Humm delícia. Depois eu crio mais algumas para você experimentar. Mas antes, ao que interessa.

O produtor respira fundo para se acalmar

PRODUTOR
Espera aí. Mesmo que essa loucura toda seja possível, como você quer que eu acredite nisso? Eu tenho uma vida inteira antes daqui. Como eu posso ser fruto da sua imaginação?

PEDRO
ééé... Eu não esperava que você tocasse nisso tão cedo, mas vamos lá. Isso é um furo na história, mas se em De Volta Para o Futuro a mãe de Marty McFly não reconhece que o seu filho é a cara escarrada do seu amor de adolescência Calvin Klein, eu também posso ter um pequeno furo. Digamos que você entrou na minha história no momento em que abriu o email. Você foi transportado para esse universo paralelo onde eu sou o todo poderoso. Antes disso você vivia no mundo (FAZENDO ASPAS COM AS MÃOS) real. Aceitável, não?

O produtor ainda um pouco desorientado parece começar a entrar na "viagem" do outro.

PRODUTOR
OK. Então vamos lá. Estamos aqui nesse mundo onde você pode tudo.

PEDRO
Certo.

PRODUTOR
Então porque você está aqui?

PEDRO
Ótimo. Podemos continuar. Como eu dizia eu vim até aqui atrás de uma oportunidade para começar...

PRODUTOR
(INTERROMPE)Espera, não é isso. Eu quero saber porque você está aqui se você tem todo esse poder.  

PEDRO
Nossa, você gosta de complicar! Eu só estou aqui para contar uma história interessante que talvez desperte o seu interesse em me contratar ou me envolver em algum dos seus projetos. Para isso eu tenho que te convencer de que eu sou um bom roteirista, com potencial, e acho que estou me saindo bem até agora, não?

PRODUTOR
Como assim? 

PEDRO
Como como assim? Está tudo aqui! Estava tudo bem normal na sua rotina até eu aparecer. Temos então o primeiro ponto de virada com a minha entrada triunfal. Estamos agora nesse universo fantástico onde tudo pode acontecer, o que eu acredito gerar uma tensão positiva com o interlocutor, uma curiosidade com o desenrolar da história. Só tenho que admitir que eu deixei um pouco a desejar com a apresentação dos personagens. Então se você permitir eu vou me apresentar um pouco melhor, e se der tempo você vai depois. Sabe como é, não dá pra alongar muito se não você nem lê depois. 

PRODUTOR
Tá bom. Vou parar de resistir e entrar nessa viagem.

PEDRO
Ótimo!

Pedro bate palmas e duas confortáveis poltronas aparecem. Os dois se sentam e parece que finalmente o produtor está mais tranquilo.

PEDRO
Certo. Como eu já disse eu me chamo Pedro. Tenho 26 anos e sou formado em Publicidade. Trabalhei desde que me formei em departamento de comunicação ou marketing só que sem me sentir realmente realizado...

Pedro para por um segundo, dá um tapa na testa e bate palmas mais uma vez. Dessa vez duas belas mulheres aparecem usando biquíni ao lado de uma piscina de plástico cheia de uma espécie de gel. O produtor não entende nada.

PEDRO
Eu já ia me esquecendo. Essa parte é meio chata, aí eu quis dar uma animada.

O produtor não tira os olhos das mulheres que começam a entrar na piscina.

PEDRO
Se bem que é meio inapropriado né. Sem falar que o preço de entretê-los (APONTA COM A CABEÇA A "CÂMERA") é perder a sua atenção.

O produtor fica um pouco sem graça. Pedro bate palmas novamente e as mulheres com a piscina são substituídas por um palhaço fazendo animais de balão. 

PEDRO
Muito infantil?

O produtor faz um pequeno aceno com a cabeça concordando e Pedro bate palmas mais uma vez. O palhaço some e uma grande lava lamp aparece sobre uma mesinha entre os dois.

PEDRO
Se funciona com os Sims, vai ter que bastar. Onde eu estava? 

PRODUTOR
Você não estava realizado.

PEDRO
Pois é. Então eu estava em São Paulo pouco realizado e apesar de receber elogios pelo meu trabalho, acabei perdendo meu emprego e aqui estou tentando recomeçar. Só que dessa vez em busca de uma profissão que me dê tesão de verdade. Fiz um laboratório de roteiro para me orientar, e agora estou botando as minhas idéias no papel, ou melhor, no meu blog. Para mais detalhes você pode responder o email, que daí eu te envio o meu currículo completo. Resumindo é bem isso, mas podemos bater um papo quando você tiver mais tempo.

PRODUTOR
Certo. E a nossa história aqui. Como vamos continuar? Em que momento nós estamos?

PEDRO
Certo. Eu diria que estamos no meio, mas vamos dar uma acelerada . Deixa eu ver... Nesse momento tudo deveria estar dando errado para o nosso personagem principal, no caso você. Então...

Pedro bate palmas e a caneca de café do produtor cai no chão e se quebra ao mesmo tempo em que o ar condicionado para de funcionar. 

PEDRO
E agora é a hora de começar a virada. E antes que alguém comece a reclamar eu sei que eu estou usando descaradamente o deus ex machina, mas como eu já disse o tempo é curto e ainda precisamos de um outro ponto de virada antes do clímax e do desfecho. Você está pronto? Será no embalo!

PRODUTOR  
Claro. Estou até começando a gostar disso. 

Pedro bate palmas. As luzes se apagam e pela janela dá pra ver que o dia virou noite. O produtor está sentado na sua cadeira levantando a cabeça que estava sobre a mesa. As poltronas não estão mais lá, e nem o Pedro. A única fonte de iluminação vem do monitor do seu computador. Lá está um email ainda não aberto intitulado Convite Virtual. Ele abre o email e vê que se trata de um convite para um coquetel de um amigo artista plástico. Ele fica muito confuso, olha em volta, vê as horas e data no computador. Já passou das onze e meia da noite. Ele olha mais um pouco em volta e resolve desistir. Pega suas chaves, sua bolsa pendurada e se dirige em direção a porta. Antes que ele a alcance um pedaço de papel é passado por baixo da porta. Ele  abre a porta mas não tem ninguém lá. 

PRODUTOR
Tem alguém aí?

Sem resposta ele fecha a porta e se abaixa e pega o papel. Ele abre e dá um sorriso. Ele lê e ouvimos a voz de Pedro em sua cabeça.

PEDRO 
(SOMENTE A VOZ) E aí, o que achou do segundo ponto de virada? Bem dramático não? Eu até pensei em te fazer acreditar que eu era um fantasma e que você via gente morta, mas acho que já usaram essa. De quebra eu fiz desse bilhete o nosso clímax. Eu tenho que te dizer que a minha vontade em trabalhar escrevendo roteiros é muito real, independente de todos os efeitos especias que eu demandei hoje. Já o desfecho da história vai depender muito de você. Eu prometo voltar aqui para contar para eles se é um final feliz ou não, mas você já sabe o tipo que eles costumam preferir, né não?

O produtor ainda com um sorrisinho de canto de boca olha para a câmera e as luzes se apagam.


FIM

P.S: Essa história de fato foi enviada para diversas produtoras através de um email intitulado CONVITE VIRTUAL. Agora nos resta esperar o desfecho.





  
  










11 de mar. de 2014

Prazo, o Baguera

Saindo um pouco do formato de roteiro. Segue uma pequena crônica só pra passar o tempo ;)


PRAZO, O BAGUERA

  O assunto aqui tratado será o prazo, e quando escutam isso algumas pessoas podem pensar em prazo de validade de alimentos e medicamento, ou então o prazo de receber alguma coisa. Só que nesse caso especificamente o foco está no prazo para entregar ou fazer alguma coisa, e esse costuma ser muito mais urgente. Por mais que possamos ficar ansiosos esperando alguma coisa chegar, não se compara a emoção , ou melhor, a tensão de se estar do outro lado e ver o prazo final se aproximar sob o risco de não dar tempo. E esse é justamente o X da questão, o tempo. É ele, que travestido de prazo, exerce todo esse poder sobre nós. 
  Já é meio batido dizer que o tempo não para, e se refletirmos (por um segundo para não perdermos tempo), mesmo correndo o risco de soar pessimista, ele está sempre acabando. O tempo urge, e me apoderando da famosa citação, ele na verdade ruge! Ruge como um leão no nosso encalço, para nos lembrar que se dermos mole ele nos engole.
  Porque será então que gostamos de provocar o prazo, de cutucar esse felino feroz com vara curta? Eu sei, e nem adianta negar, que a maioria absoluta, salvo alguns poucos bons domadores de tempo, costumam deixar para o último segundo, esperando que o prazo dê seu bote. Eu mesmo me incluo nessa legião de procrastinadores. Na época da escola, em dia de prova eu acordava umas 3 ou 4 horas antes para estudar, sabendo que ou eu decorava tudo ali, ou era devorado pela falta de tempo. Muitos faziam ou fazem o mesmo sob o pretexto de que tudo fica mais fresco na cabeçam, e tudo bem, faz lá o seu sentido, mas que justificativa dar então para o pagamento do imposto de renda por exemplo? Eu não sei os números exatos, mas acredito que 90% das pessoas deixa para o último dia a prestação de contas com o leão. Desde já me desculpo por frustar alguns, mas eu não tenho a resposta e nem é o meu objetivo aqui chegar até ela, mas creio que muitos sábios e estudiosos tem textos que ao menos tentam responder essa questão, basta googar se você tem essa curiosidade e urgência.
  O meu objetivo aqui é outro, é deixar um alerta. O prazo é como a pantera Baguera da história do Mogli, o menino lobo. Ela, diferentemente de Shere Khan (o tigre) que faz sempre questão de dizer e mostrar o quanto ele é perigoso, é muito mais discreta, quase sonolenta, mas como a história conta, muito mais perigosa. Ela, como uma sombra negra fica a espreita camuflada, vendendo uma falsa sensação de segurança para a sua presa. Por isso não se esqueçam, tudo tem um prazo, até esse texto que não está em uma revista ou jornal e aparentemente está livre disso. Só que o seu autor está sujeito, como tudo mais, ao prazo da vida. Então não percam tempo, piscamos os olhos e já passou o carnaval. E como o ano por aqui só começa agora, vamo que vamo! Porque em junho já tem a Copa, que nada mais é do que a pantera camuflada de oba oba comendo o nosso ano.